Quem

quem saíu pela janela e sobre a cidade, cruzou-se com linhas de telefone, linhas de electricidade e cordas da roupa

com os gatos que são pardos, subiu a primeira linha entrecruzada com outras linhas, estradas, arestas de escadas

com as linhas dos comboios, com as linhas dos eléctricos, com os fios cheios de nós que atravessavam o céu

quem viu a lua onde não já havia desvio, as janelas que se abrem e fecham, as transparências das bocas

quem como as gaiolas que se abrem e voam, apanhou-se na linha do meio, espiralada, que se separou do original

com pés leves e estrelas sobre a face, quem foi em desfile pelas fachadas que são douradas de pura especulação

percorreu uma linha emoldurada de azul-turquesa, esqueceu-se da janela na queda e abandonou-se hereticamente

quem vocalizou vibrante e deu passagem aos náufragos, crepitou como as caudas espiraladas dos musaranhos celestes

quem tocou as cordas em veloz precipitação, onde os pés de gato tocaram os telhados, onde se entre-cruzaram as teias

pelas vielas ocas de palavras, pelas escadarias lustrosas de ignorância, pela surdez com menos um dilema

porque nos dias cortantes a inocência do óbvio causa demasiada confusão, quem lavou as linhas com a compreensão

desfiou os cacos para formar uma pilha mais brilhante que outrora, saiu para fora da linha que o segurava

e houve palmas, houve gritos por entre as brumas, houve linhas que rebentaram só para se enrodilharem mais adiante

disseram-lhe anormalidades sobre os olhos distantes, abriram-lhe asas sobre uma vasta rede freneticamente cinzenta

para fazer das grades uma ribalta luminosa, quem saíu pela janela e viu a cara espalmada de três panteões expectantes

enquanto esfregou um olho, a cidade percorreu duas milhas, enquanto chamou um só nome perto do rés-do-chão

nasceram-lhe jarros desse termo direito, uma pérola dos olhos escorreu para o peito, uma linha sem erros pelo labirinto

e foi uma cláusula oculta no mapa das impossibilidades, enquanto a cidade se abria depois da inútil janela

quem cerrou os punhos defronte da manhã, outros tantos diante da ponte, e vieram-lhe todos os dias líquidos

O Outro



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