sou desta terra estranha * estranha serei por norma
da terra da gente do mar * por rotas todas perdidas
onde uma esquecida lenda * na orla esculpida de sal
reza a madeira encalhada * em honra de quem não vem
onde dragões dormem pelo * impávido e sereno pensar
meio dos campos e pedras * este terreiro de espigas
da terra do fim da terra * e pelo mar do fim do mar
guardei-me como promessa * no seio de árvores vivas
no cismar e águas claras * nasci loucuras habitadas
gelei a escorrer o adeus * de outras terras e mares
pela natureza dura serei * estranha toda onde passe
estranha a deus e a povo * eu perdida fé no encalço
sou de onde nunca pousei * a cortar os salinos ares
vou depressa sem destino * quando devotos e altares
ardendo numa pira frugal * dizem que devo descansar
na chama lenta e egoísta * de tudo que mate o andar
céus com um nome anónimo * acodem-me da normalidade
juram e abraçam na quase * tenra voz da sua vaidade
superior mente da sátira * e sou bem-vinda onde caí
quinze monstros de barro * berram que o Éden é aqui
fui nas escamas das rias * o torpor descrente adeus
partimos depois do tempo * e chegámos antes de deus
antes de quem eu era fui * sem dúvida um passo fora
da casa que ninguém quis * e tropecei antes da hora
pela rota que não cismei * uma casa de altas portas
não sou da terra nem sou * das ilustres luas mortas
de temporalidades dignas * de qualquer sítio normal
sou de coisa distribuída * por azul no branco final
mais azul do mar que amo * e muito azul além do mar